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Après-rêve em Sol frígio

São esverdeados

a pele de galinha já esbateu mas não a impressão que me dá, a visão, esverdeados, nunca sonolentos, sempre ardentes, sobreiro em chamas num pôr-do-sol de agosto em que o vermelho demora horas e horas a deslizar pelas nuvens até cair debaixo do horizonte, um bafo demoníaco, tão quente que sempre tive medo de me queimar e olhando para trás tinha toda a razão, mas nunca hei de negar que é um espetáculo hipnotizante, a mudança constante, a intensidade, a paixão, as línguas alaranjadas com o céu em fundo, as línguas

é como o tempo nos açores

as línguas em que falávamos naquelas tardes e noites longas de junho no meu último andar de babel, benfica, português, francês e um aramaico no qual era suposto estar tudo escrito (e quantos é que já ouviram e ouvirão essa pergunto-me), promessas e certezas que se revelam falsas, uma teórica perfeição, a sensação de que finalmente está tudo bem, que vai ficar tudo bem, mi-bemol lídio a apontar sempre para cima, feitiço, fresta, talvez feiticeiro preso agora, rosas e beleza, um jardim

cut along the length, but you can’t get the feeling back

um jardim que morre e apodrece no insuportável sol ibérico, os alicerces incertos mostram-se, tanta coisa construída em tão pouco tempo, mas de repente o cânone tornou-se apócrifo, por muita fé que tenha tido, no momento de aceitação vão-se todos os fragmentos pelos ares, o casino, piña colada, azul-flul, azur, falésia, mosteiro, constança, farrapos, inconcretizados, antecipação, dor, que filha da puta de dor, há dias que são curtos e misericordiosos e dias que são longos e até felizes mas de vez em quando há um dia destes que, deus me ajude

nunca gostei de facas mas nada me impede de pegar numa pena.